Entre serras azuladas, águas fartas e caminhos antigos, nasceu a vila de Itaitu, um lugar que carrega no próprio nome a memória da terra: “Pedra Grande”, palavra herdada das línguas indígenas que ecoavam por estas bandas muito antes da chegada dos colonizadores. Antes de ser Itaitu, a vila já foi chamada de Serra Azul, Riachão e Riachão de Jacobina, nomes dados pelo povo, pelas águas e pela paisagem que moldaram a identidade do lugar.
A história de Itaitu começa muito antes das casas, da igreja e das estradas. Ela começa com os povos originários, especialmente os Payayás, que habitavam a região e deixaram marcas profundas nos costumes, na alimentação e no modo de viver. Ainda hoje, o beiju, a farinha, a mandioca, o milho, o licuri e o babaçu fazem parte do cotidiano do povo, como herança silenciosa daqueles primeiros habitantes. A tradição das casas de farinha, das roças de fundo de quintal e da agricultura familiar segue viva, atravessando gerações.
Entre mitos e memórias, a vila foi crescendo em meio às fazendas de criação de gado, aos engenhos de rapadura e aguardente, aos caminhos usados por tropeiros e viajantes que cruzavam o sertão da Chapada. O carro de boi, os currais e a vida vaqueira fizeram parte da formação cultural do lugar. Muitos homens da vila viveram — e ainda vivem — da lida do gado, carregando na fala mansa e no silêncio atento a alma sertaneja.
Personagens antigos permanecem guardados na memória coletiva. Dona Aurora lembrava que “era tudo curral”. Seu Tazinho, Seu Tó e também seu Raimundo da Baixa recordavam as viagens para Jacobina em carro de boi, no lombo de burro ou até em longas caminhadas. Ainda restam homens e mulheres ligados às tradições antigas, seguem fazendo, rapadura, quebrando o coco babaçu, (abundante na região), o beiju e derivados da mandioca, mantendo viva uma cultura que resiste ao tempo. São pessoas simples, mas fundamentais para compreender a alma de Itaitu.
Ao longo do século XIX, a vila ganhou novos contornos. A igreja matriz, construída ainda no período em que Itaitu era freguesia de Jacobina, tornou-se símbolo do povoado. As casas simples ao redor da praça guardavam traços da arquitetura antiga, enquanto as fazendas preservavam casarões, engenhos e memórias de um tempo marcado pela força do trabalho rural.
Mas Itaitu nunca foi uma vila rica em ouro ou luxo. Sua verdadeira riqueza sempre esteve na natureza: nas cachoeiras, nos rios, nas serras e no sossego. Durante muito tempo, o lugar cresceu devagar, quase em silêncio. Em meados do século XX, poucas centenas de pessoas viviam ali, carregando água na cabeça, plantando para sobreviver e construindo uma vida simples, comunitária e profundamente ligada à terra.
Com o passar dos anos, especialmente a partir da década de 2010, a vila começou a se transformar rapidamente. O turismo trouxe movimento, renda e visibilidade. Novas pousadas, casas modernas e visitantes vindos de muitos lugares passaram a ocupar um território antes marcado pela calmaria. Isso trouxe benefícios econômicos e oportunidades para muitos moradores, fortalecendo o comércio e valorizando a região.
Mas junto das mudanças positivas, também chegaram as perdas. Casarões antigos foram demolidos, rios passaram a sofrer com lixo e excesso de visitantes, e o barulho dos carros e paredões começou a quebrar o silêncio tradicional da vila. A especulação imobiliária alterou a paisagem, substituindo a arquitetura simples por construções modernas que pouco dialogam com a memória do lugar. Muitos moradores mais antigos sentem que parte da identidade sertaneja vai se apagando aos poucos.
Ainda assim, Itaitu resiste. Resiste no cheiro da rapadura quente, no canto das águas das cachoeiras, no vaqueiro que sai cedo para a lida, na farinha feita à mão, nas histórias contadas nas portas das casas ao cair da tarde. A vila segue entre o passado e o futuro, tentando equilibrar desenvolvimento e memória, modernidade e tradição.
Porque Itaitu não é apenas um destino bonito da Chapada. É um lugar de raízes profundas, feito de pedra, água, silêncio e gente. Um pedaço do sertão onde o tempo ainda insiste em caminhar devagar.
Referencias:
*Valter Gomes Santos de Oliveira
Professor e Doutor em História Social: Texto fundante Memorial da Vila de Itaitu (2026)
*Verusa Pinho
Jornalista e Mestra em Educação e Diversidade
:”Do Coração de Jacobina: relatos e retratos de Itaitu” (2009)
*Marcos Ferreira Gonçalves
Mestre em História Regional e Local:
Pesquisa histórica: Documentário: Riachão de Jacobina: Memória, Patrimônio e Identidades de um Lugar (2025)
